Para conter a tempestade cerebral

05/01/2010 17:30

O cérebro humano é composto de 100 bilhões de células nervosas, os neurônios. Por meio de sinais elétricos, cada uma se liga a milhares de outras em mais de 100 trilhões de conexões. São essas conexões que comandam o funcionamento do organismo – dos movimentos às emoções, da memória às sensações. O nosso próprio "eu", enfim, depende delas. Existe, porém, uma condição capaz de pôr fim a esse equilíbrio: a epilepsia. Nas suas manifestações, um grupo de neurônios registra uma atividade elétrica bem mais intensa, levando a que ocorra uma espécie de curto-circuito e ao comprometimento da atividade cerebral. É o que o escritor russo Fiodor Dostoievski, ele mesmo epilético, definiu como "tempestade cerebral". Nas crises, o doente, em geral, perde a consciência, debate-se, revira os olhos e pode morder a própria língua. O impacto emocional desses episódios é devastador para as vítimas e familiares e o distúrbio continua a estigmatizar da mesma forma que na Antiguidade, quando os doentes faziam de tudo para escondê-lo, por medo de parecer possuídos por demônios ou algo que o valha – entre eles, o tirano romano Júlio César. Com o advento da medicina moderna, no século XX, avanços notáveis foram alcançados no sentido de entender a epilepsia, mas ainda é impossível falar em cura para boa parte dos pacientes. O que existem são formas de conter as crises. A mais recente é a cirurgia para o implante profundo de eletrodos. Os resultados das duas primeiras intervenções desse tipo realizadas no Brasil acabam de ser divulgados. Coordenadas pelo neurocirurgião Arthur Cukiert e realizadas no fim de julho e início de agosto, no Hospital Brigadeiro, em São Paulo, as cirurgias foram até agora um sucesso. Desde a alta, nenhum dos pacientes (uma mulher de 30 anos e um garoto de 16) relatou novas crises.

A cirurgia, desenvolvida no México, consiste no implante de dois eletrodos no tálamo, estrutura localizada no centro do cérebro que se comunica com todas as outras regiões do órgão. O aparelho emite choques que mantêm o ritmo dos impulsos elétricos cerebrais. Com isso, a freqüência das crises tende a diminuir de 50% a 90%. Por se tratar de um procedimento novo, o implante profundo só é realizado quando todas as outras opções de tratamento falham. "Como é um procedimento com poucos riscos e bastante eficaz, esperamos que, em breve, ele possa ser dominante", diz o médico Cukiert. Há outros três tipos de operação para o controle da epilepsia. Um deles também visa ao equilíbrio da atividade elétrica cerebral, mas de forma indireta, com o implante de eletrodos no nervo vago, localizado no pescoço e responsável pela conexão entre o sistema nervoso e o resto do corpo. As demais técnicas são extremamente agressivas. Numa, os médicos desconectam os dois hemisférios do cérebro. Na outra, removem a porção cerebral que dá origem às convulsões.

A primeira opção de tratamento permanece a medicamentosa. Em meados do século XIX, um dos médicos da rainha Vitória, da Inglaterra, descobriu por acaso que um tipo de sedativo, os brometos, controlava as crises de epilepsia. Desde então, foi desenvolvida pelo menos uma dezena de remédios que modulam a atividade elétrica das células cerebrais. Lançados em meados da década de 90, os mais modernos, como a oxcarbazepina e o topiramato, além de agir mais especificamente sobre as células nervosas, sobrecarregam menos o fígado. Suas reações adversas são, desse modo, menos severas do que as causadas pelos remédios mais antigos, que incluíam sedação e alteração de humor, entre outras. O grande inconveniente dos antiepiléticos modernos é o preço. Uma caixa com sessenta comprimidos sai por cerca de 300 reais – a mesma quantidade dos medicamentos tradicionais custa 10 reais, em média. Cerca de 80% dos pacientes conseguem controlar as crises com os remédios. O restante tem de recorrer às cirurgias. No Brasil, existem 2,5 milhões de doentes. Por incrível que pareça, muita gente ainda associa a epilepsia a limitações intelectuais. Limitação intelectual é fazer esse tipo de associação.