NEUROTRAUMATOLOGIA: Traumatismo Cranioencefálico por Projétil de Arma de Fogo

23/10/2012 00:56

O crescente aumento das tensões sociais, com a grave crise em que vive a sociedade contemporânea, tem gerado um incremento da violência, especialmente nos grandes centros urbanos, a qual é caracterizada por uma elevação do índice de agressões, de assaltos e de suicídios. Como consequência, os serviços de emergência passaram a atender cada vez mais pacientes vitimados por lesões dessa natureza, entre as quais os ferimentos por projétil de arma de fogo (PAF) representam, por sua gravidade e assustadora frequência, um tema que merece atenção especial e, dentre esses, os ferimentos cranioencefálicos em particular.

O traumatismo cranioncefálico por projétil de arma de fogo é importante causa de morte e de deficiência física e mental.

Lesões cerebrais ocorrem em todas as faixas etárias, sendo mais comuns em adultos jovens, na faixa entre 15 e 24 anos.

Estas lesões merecem constante atenção do meio neurocirúrgico, especialmente no que diz respeito à neurotraumatologia. O desafio que representa tratar lesões penetrantes cranioencefálicas, em especial as provocadas por arma de fogo, mantém-se ainda hoje para quem trabalha nos serviços de emergência e nos grandes centros neurocirúrgicos, causando um número elevado e crescente de mortes e de sequelas, muitas vezes, graves e incapacitantes.

Se é verdadeiro o fato de que, para cada óbito, sete pacientes que sofrem ferimento por PAF sobrevivem, também é sabido que as lesões cranioencefálicas  são as que estão mais associadas com evolução fatal, se comparadas com ferimentos em outras partes do organismo.

Também é reconhecido que os pacientes que chegam a receber atendimento médico, cerca de 90% daqueles que sofrem um ferimento por PAF morrem antes mesmo de chegar a um ambiente hospitalar.

O conhecimento dos princípios da balística, assim como noções acerca das armas e munições, servem de embasamento para que melhor se compreenda os mecanismos patogênicos e, por via de consequência, a patologia das lesões por PAF. Sendo a velocidade considerada como principal fator causador de lesão, nem por isso outras variáveis deixam de participar na gênese das lesões encefálicas, tais como o calibre da arma, a distância em que o projétil é disparado, a composição do projétil e a angulação com que ele sofre o impacto contra o crânio, o local do trauma e a trajetória do projétil dentro do crânio, e até mesmo a espessura do couro cabeludo e da tábua craniana da vítima.

Nos ferimentos cranioencefálicos , outros eventos fisiopatológicos participam na gênese de lesões, tais como a hipertensão intracraniana, as hérnias encefálicas e os distúrbios da hemodinâmica cerebral. A compreensão dos fenômenos envolvidos é fundamental para a real mensuração das lesões, assim como da avaliação dos fatores prognósticos e critérios para o manuseio do paciente.

Conclui-se que o sexo e a idade do vitimado parece não representar fatores significativos com relação à mortalidade, a não ser para os com idade inferior a 15 anos.

A natureza da ocorrência também parece não representar fator significativo com relação à mortalidade, embora esta seja discretamente menor nos ferimentos de causa acidental se comparado aos de causa intencional.

O quadro neurológico de internação se revela como importante fator prognóstico quanto à mortalidade, tanto no que se refere ao grupo clínico como quanto ao nível de consciência avaliado pela Escala de Coma de Glasgow ou ECG (escala desenhada para permitir quantificar o exame neurológico e medir o grau de envolvimento neurológico). Falecem cerca de 93% dos pacientes comatosos com sofrimento do tronco encefálico e menos de 5% dos que se apresentam acordados ou sonolentos (ECG igual ou maior que 12).

A trajetória intracraniana do projétil representa importante fator prognóstico quanto à mortalidade. Falecem cerca de 91% dos pacientes nos quais o projétil cruza tanto o plano coronal como o sagital, e apenas 4% daqueles em que o projétil não cruza nenhum dos planos, permanecendo em um quadrante.

Os ferimentos cranioencefálicos por PAF representam lesões extremamente graves, com alta mortalidade. A maior parte dos pacientes com evolução fatal morre nas primeiras seis horas.