Nanotecnologia pode barrar avanço da esclerose múltipla

18/01/2013 17:03

Ao incluir uma nanopartícula no tratamento, pesquisadores conseguiram evitar que a condição autoimune evoluísse para quadros mais severos.

nanotecnologia poderá se tornar a solução para tratar a esclerose múltipla, uma doença autoimune cuja causa é desconhecida e para qual não existe cura. Segundo pesquisadores da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, a nanotecnologia, um mecanismo que permite a produção de materiais especiais e o controle de sua absorção, pode ‘ensinar’ o organismo a não atacar os seus próprios tecidos. Assim, seria possível evitar a evolução e o surgimento de sintomas característicos da esclerose múltipla. A descoberta foi publicada na revista Nature Biotechnology.

Na esclerose múltipla, o sistema imunológico do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinal e do nervo óptico. Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.

Pesquisa — Os cientistas americanos ligaram os antígenos da mielina a nanopartículas biodegradáveis. O antígeno da mielina é uma parte da própria substância que pode levar a uma resposta imunológica do organismo, fazendo, assim, com que o corpo destrua essa camada protetora. Em outras palavras, ele seria similar a um botão: quando ligado provoca uma reação autoimune (caso da esclerose múltipla), quando desligado, passa despercebido — e não é destruído pelo sistema imunológico.

Em seguida, antígeno e nanopartícula, já unidos, foram administrados em camundongos com esclerose múltipla por via intravenosa. Ao contrário das terapias utilizadas atualmente para a doença, a desenvolvida na Universidade Northwestern não desliga todo o sistema imunológico. Isso evita que os pacientes fiquem mais suscetíveis a infecções e a outras doenças, como o câncer. De acordo com os cientistas, na nova abordagem as nanopartículas ligadas aos antígenos fazem com que o sistema de defesa volte ao normal, pare de reconhecer a mielina como um agente estranho e, assim, deixe de atacá-la.

Mecanismo — Além de proteger o corpo contra invasores, o sistema imunológico tem ainda um papel importante em se livrar das células mortas. Quando essas células mortas, ou aquelas que estão quase morrendo, passam pelo baço, órgão responsável por destruí-las, os macrófagos (células que atuam no mecanismo de defesa do corpo) as devoram. Os macrófagos também enviam sinais ao resto do sistema imunológico avisando que as células que acabou de atacar não são perigosas, mas ‘lixo’.

Há alguns anos, Stephan Miller, coordenador do estudo, estuda uma forma de fazer com que determinadas células se livrem desse mecanismo que as leva para o lixo e continuem circulando no organismo de maneira incólume. Em testes com camundongos com esclerose múltipla, o pesquisador descobriu que associar o antígeno da mielina a uma nanopartícula sintética consegue enganar o sistema imunológico. A técnica é possível porque as defesas do corpo reconhecem as nanopartículas como células sanguíneas mortas comuns — e que não precisam ser atacadas e destruídas. Isso acaba criando uma tolerância imunológica ao antígeno, pois inibe a resposta imunológica à mielina e aumenta o número de células regulatórias que diminuem a resposta autoimune característica da esclerose múltipla.

De acordo com Miller, os testes com os camundongos mostraram que a abordagem impediu que esses animais tivessem recaídas em até 100 dias, o que equivale “a vários anos na vida de um ser humano com a doença”. Se essa abordagem se mostrar eficaz em testes com seres humanos, ela também poderá servir como base para tratamentos de outras doenças autoimunes, como o diabetes tipo 1 e a artrite reumatoide. Isso aconteceria pois a nanopartícula poderia se ligar a outras proteínas que não somente a da mielina.