CEFALEIA EM SALVAS

21/12/2010 03:35

Cefaleias em salvas são fortes dores de cabeça, extremamente dolorosas e de ocorrência rara, que ocorrem em grupos ou salvas. Entupimento nasal e/ou escorrimento, queda da palpebra e olho lacrimejando, geralmente só atinge um lado da cabeça na zona ocular ou temporal.

É certamente o tipo de dor de cabeça mais forte que se conhece. Mais comum nos homens que nas mulheres, a cefaleia em salvas é caracterizada por uma dor unilateral (em um lado da cabeça), envolvendo a região frontal, ocular. Sua duração é de 15 minutos a 3 horas, podendo apresentar de uma até oito crises por dia, com um predomínio noturno, geralmente pacientes acordam no meio da madrugada com dor de cabeça.

Fenômenos autonômicos como lacrimejamento, olho vermelho, queda palpebral, sudorese facial, inchaço ocular, congestão nasal e coriza, todos do mesmo lado da dor são acompanhantes da dor.

As cefaleias em salvas só respondem a analgésicos muito específicos. Na realidade, só respondem ao sumatriptano que não é propriamente um analgésico, mas uma substância que atua diretamente sobre os receptores da serotonina e, se injetada por via subcutânea no início da crise, em 5 minutos corta os sintomas. Para esse tipo de cefaleia, não adianta prescrever comprimidos por via oral, porque esses demoram perto de 20 minutos para fazer efeito, tempo em que a dor já atingiu um nível insuportável.

Os mecanismos da cefaléia em salvas são diversos , mas podemos dividir em três grupos ou aspectos: cronobiológico, vascular e oxigenação.

No cronobiológico, ocorre a disfunção do núcleo supraquiasmático numa região pequena e central do cérebro, o hipotálamo. O núcleo supraquiasmático é nosso relógio biológico. É através dele que ocorre o estímulo para a produção e secreção de melatonina na glândula pineal, substância que é alterada no sofredor de cefaléia em salvas.

O aspecto vascular se dá pelas alterações circulatórias das artérias cerebrais. A oxigenação interfere na cefaléia, pois muitos pacientes apresentam apnéia do sono, uma doença que reduz as taxas de oxigênio no cérebro. Também são fatores de risco o tabagismo e a altitude, ambos pela alteração nos níveis de O2.

A cefaléia em salvas recebe esse nome porque, em geral, a pessoa é acometida por uma "salva" de cefaléias (digamos, 3 crises ao dia, de 40 minutos cada uma, durante 20 dias), seguida por um período sem cefaléias (que pode variar de semanas a anos), formando um padrão cíclico que se repete ao longo do tempo, com uma precisão impressionante. Também impressionante é a regularidade dos horários das crises, bem como da duração das mesmas, durante o período de salvas. É comum a pessoa saber dizer exatamente quantos minutos dura cada crise, bem como o horário exato de cada crise. É a dor com hora marcada!

Felizmente, já se sabe controlar o problema. Uma das maneiras de escapar de uma crise de cefaléia em salvas é através da inalação de oxigênio a 100%, durante 15 minutos (não serve ar comprimido, precisa ser oxigênio). De cada 4 sofredores, 3 obtêm um alívio rápido da crise mediante a inalação de oxigênio, em fluxo máximio, com a máscara bem apertada. É um método que deveria ser mais divulgado, afinal, não envolve drogas e está ao alcance de todos. Mas possui a desvantagem de não prevenir as crises, apenas aliviar a crise que já está acontecendo. Por isso, é preciso, também prevenir as crises.

Para prevenção, existem remédios como a metisergida, o verapamil, o lítio, o valproato e a metilergonovina, entre outros, que o médico prescreve no intuito de espaçar as crises, torná-las mais brandas se sobrevierem, e mais fáceis de combater. Além do oxigênio, têm sido muito utilizados vários dos triptanos (principalmente o sumatriptano, rizatriptano e zolmitriptano) para o caso de uma crise na vigência do tratamento preventivo. Atenção: não use remédios preventivos sem receita médica, pois eles necessitam de acompanhamento e monitorizações especializadas.

A imensa maioria dos sofredores de cefaléia em salvas são fumantes inveterados. Portanto, quem não fuma está muito menos arriscado a ter essa doença.

Ao contrário da enxaqueca, o paciente com cefaléia em salvas não consegue identificar fatores desencadeantes de crises - com exceção do álcool. Durante o período de salvas, se a pessoa beber, certamente apresentará uma crise logo em seguida. Passado o período de salvas, a pessoa pode beber, que a crise não virá.

Normalmente, não se associa essa doença a fatores desencadeantes de ordem emocional. Porém, minha experiência demonstrou que existe uma associação. Pacientes meus passando por problemas emocionais, ficam muito mais difíceis de responder a tratamentos antes bem mais eficazes. Técnicas de relaxamento e de controle do stress são recursos eficazes em qualquer doença crônica, e a cefaléia em salvas parece não ser exceção.