A Nova Ciência do Sono

05/01/2010 17:47

A medicina descobriu que dormir
bem não apenas descansa, mas faz
pensar melhor e até emagrece.

Durante séculos, o sono foi considerado uma espécie de tempo morto. Serviria apenas para repor as energias gastas durante o dia. Essa concepção começou a ser desmontada na primeira metade do século XX, mas foi somente nos últimos dez anos, com os avanços nos estudos da genética, da biologia molecular e da neuroquímica, que a maioria dos médicos teve a atenção despertada (com o perdão do trocadilho) para a fisiologia e o real papel do repouso noturno na preservação da saúde. "As descobertas recentes inauguraram uma nova ciência do sono", diz o neurofisiologista Flávio Alóe, do Centro de Estudos do Sono do Hospital das Clínicas, de São Paulo. Ao contrário do que se supunha, durante o sono, o cérebro mantém-se em intensa atividade. Ela obedece a um ritmo próprio, abrange etapas bem definidas e é produto de um equilíbrio especial entre substâncias químicas e impulsos elétricos. Quando todos esses sistemas trabalham em harmonia, conserva-se a boa saúde. Quando, no entanto, eles entram em descompasso, por menor que seja o desajuste, o corpo padece. Sabe-se, hoje, que uma boa noite de sono ajuda a manter a silhueta alinhada, fortalece as defesas do organismo, protege o coração, facilita o aprendizado e a criatividade, aguça o raciocínio e até remoça. Em contrapartida, uma sucessão de noites em claro aumenta a incidência de diabetes tipo 2, depressão, problemas de memória, distúrbios cardiovasculares e até câncer.

Uma das pesquisas mais reveladoras é a que estabelece uma relação direta entre privação de sono e ganho de peso. Durante o repouso ideal, aumenta a síntese do hormônio leptina, responsável pela sensação de saciedade. Ao mesmo tempo, baixa a produção de grelina, o hormônio do apetite. Pois bem, a falta de sono pode levar a um desarranjo na liberação dessas substâncias e, assim, ao acúmulo de tecido adiposo. O maior estudo sobre o assunto foi realizado por médicos da Universidade Care Western Reserve, nos Estados Unidos. Eles acompanharam cerca de 70.000 mulheres ao longo de dezesseis anos. Metade delas dormia mal e não conseguia ultrapassar cinco horas de sono por noite. A outra metade dormia bem e por sete horas, em média. Ao término da investigação, os pesquisadores constataram que as voluntárias do primeiro grupo haviam engordado 15 quilos no período – um ganho de peso 30% maior do que o registrado entre as mulheres do segundo grupo. Mas as insones não comiam mais do que as não-insones. Comiam menos. A explicação para esse aparente paradoxo está no fato de que noites maldormidas, ao desregularem a fabricação de leptina e grelina, causam uma queda no ritmo do metabolismo. Ou seja, a queima calórica diminui e a armazenagem de gordura cresce. "Ao que tudo indica, a falta de sono é um fator de risco para a obesidade tão grande quanto os hábitos alimentares", diz o médico Sanjay Patel, coordenador do estudo.

A evolução no entendimento do sono teve como ponto de partida as pesquisas do fisiologista americano Alfred Loomis, da Universidade Princeton, feitas em 1937. Graças a um exame inventado pouco antes, o eletroencefalograma, Loomis foi o primeiro a mostrar que, mesmo no descanso noturno, o cérebro registrava atividade elétrica. O padrão das ondas cerebrais, no entanto, era diferente do verificado na vigília, com um nível de consciência menor. Além disso, Loomis notou que as oscilações na atividade elétrica do cérebro obedeciam a etapas bem definidas, que se repetiam em ciclos de, em média, noventa minutos cada um. Com isso, ele dividiu o sono em quatro estágios. O primeiro é o da sonolência, a transição da vigília para o sono, em que "a pessoa está como que à deriva, boiando, entrando e saindo da percepção consciente", escreve o psicólogo americano Santley Coren, no livro Ladrões de Sono. O estágio dois é o do sono intermediário, também conhecido como "o primeiro sono verdadeiro", do qual se desperta com facilidade. As etapas três e quatro compreendem o sono profundo, aquele que mais descansa. Em 1953, foi constatada a existência de uma quinta etapa do sono, chamada REM, sigla em inglês para movimentos oculares rápidos. No sono REM é que ocorrem os sonhos. Um de seus descobridores, o médico William Dement, da Universidade de Chicago, defende que o movimento dos olhos ocorre porque assistimos aos sonhos como se fossem filmes projetados numa tela à nossa frente. Do tempo total de repouso noturno, o ser humano passa 5% em sono leve, 45% em sono intermediário, 25% em sono profundo e 25% sonhando.

O número de horas, por si só, tem pouca importância. Propalou-se, durante anos, que um sono verdadeiramente reparador tinha de durar oito horas. Bobagem, atestam as novas pesquisas, já que se trata de um aspecto influenciado por uma série de variantes, como idade, genética e hábitos de vida. Está certo que nove de cada dez pessoas foram programadas geneticamente para acordar por volta das 7 da manhã e ir para a cama ao redor das 11 da noite. Mas há aquelas, por exemplo, que foram "desenhadas" por seus genes para funcionar melhor no período noturno e têm, por isso, extrema dificuldade para dormir e acordar cedo. Não é uma questão de indolência, e sim de natureza (boa desculpa para você, preguiçoso...). Ir contra essas características é, geralmente, tarefa das mais penosas, como ilustra, com bom humor, o dramaturgo italiano Ennio Flaiano, no livro Diario Notturno, de 1956. Nele, Flaiano narra o esforço de um homem para tornar-se uma pessoa de hábitos matutinos: "Decidiu mudar de vida, aproveitar as horas matinais. Levantou-se às 6, tomou banho, fez a barba, vestiu-se... e acordou ao meio-dia".

A verdade, porém, é que a maioria das pessoas, ao menosprezar o sono noturno, seja por necessidade de trabalho, seja por farra, termina por comprometer a sua saúde. A insônia voluntária, por assim dizer, quase sempre resulta na involuntária. Metade de toda a população adulta brasileira experimenta, pelo menos uma vez por semana, uma noite maldormida. Cerca de 30% dela tem insônia crônica, o que representa 40 milhões de zumbis. O que a nova ciência do sono também ensina é que é preciso aprender a dormir. Isso mesmo. Boa parte dos insones não prega os olhos porque simplesmente não sabe dormir. O que você faz quando chega o fim de semana? Desliga o alarme do despertador e, no sábado e no domingo, dorme até o sono acabar. É uma delícia. Então vem a segunda-feira e, com ela, já logo ao acordar, uma sensação de cansaço. A impressão que se tem é que não se descansou nada. Se não bastasse, a fadiga se estende pela terça – e, se bobear, pela quarta, quinta e sexta. Aí chega o fim de semana e a certeza de que dessa vez a canseira será compensada. Mas na semana seguinte a história se repete e assim por diante, num exaustivo círculo vicioso. Isso ocorre porque o suposto remédio para o cansaço cumulativo é justamente seu agente deflagrador: dormir até tarde no sábado e no domingo.

A descoberta coube a pesquisadores da Universidade Flinders, na Austrália. Depois de medirem a concentração de melatonina, o hormônio do sono, no sangue de dezesseis jovens saudáveis, de segunda a domingo, eles concluíram que dormir duas horas e meia além do habitual, por dois dias seguidos, provoca um atraso de 42 minutos no relógio biológico. Pode parecer pouco, mas é o bastante para criar uma legião de zumbis. O ideal é que não se durma mais de uma hora e meia além do habitual. Se, mesmo assim, o sono persistir, deve-se ficar acordado por, no mínimo, três horas antes de voltar para a cama. Ou esperar até depois do almoço, entre 1 e 3 horas da tarde, e fazer uma sesta de, no máximo, trinta minutos. Ajustes como esses mantêm a pontualidade do relógio biológico e ajudam a preservar a qualidade do sono.

Se aprender a dormir é difícil, tomar remédio para desmaiar na cama é facílimo – e os avanços nos estudos da fisiologia do sono vêm impulsionando a produção de medicamentos mais seguros. Uma das substâncias em que a indústria farmacêutica mais aposta é o gaboxadol. "Ao que tudo indica, o sono à base de gaboxadol é o que mais se aproxima do natural, sem os riscos de efeitos colaterais dos remédios tradicionais", diz a médica Dalva Poyares, da Sociedade Brasileira de Neurofisiologia Clínica. Certa vez o escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) observou: "Se não somos mais loucos e mais doentes, devemos isso exclusivamente ao sono, o mais abençoado de todos os atributos naturais". A cada descoberta, a ciência atesta que o autor de Admirável Mundo Novo estava coberto de razão.